Quando todo mundo esperava o pior

Tem uma coisa interessante nesse mundo do vinho: às vezes, a natureza te surpreende exatamente quando você menos espera. O inverno de 2022 no Piemonte foi seco, quase sem neve — o que é um problema sério, porque é o degelo que alimenta os solos nas Langhe durante o verão. O ano de 2021 já havia sido árido, e as reservas de água no solo estavam no limite. Aí virou 2022 e a estiagem simplesmente continuou. Floração antecipada. Julho quente e seco. Produtores preocupados com queima de folhas e uvas murchas.

Quando a colheita chegou, boa parte aconteceu bem antes do que de costume — entre meados de setembro e início de outubro, uma janela mais curta que o normal. As uvas tinham cascas grossas, bagos pequenos e pouca polpa. Em alguns casos, a produção caiu 20 a 25% em relação a anos anteriores. No papel, parecia uma receita para o desastre.

"Nunca vimos nada parecido" — foi assim que produtores tradicionais das Langhe descreveram a safra 2022. Uma temporada sem comparação com nenhuma outra que vieram antes.

Por que a safra virou ao contrário

Aqui mora a surpresa. Quando os vinhos foram provados pela primeira vez, críticos e produtores ficaram desconcertados — no bom sentido. O que esperavam ser vinhos pesados, alcoólicos e com taninos secos virou outra coisa: Barolos acessíveis, frutados, com frescor surpreendente e uma leveza que ninguém havia previsto.

Parte da explicação está na luz. O 2022 teve mais sol do que calor excessivo, e isso fez diferença. As uvas amadureceram de forma relativamente limpa, sem notas de cozido ou passificação excessiva. Quem cuidou bem do vinhedo — controlando a quantidade de cachos, gerenciando a sombra das folhas, escolhendo com cuidado na hora da colheita — saiu com uvas em ótimo estado. E o Nebbiolo, que historicamente é do tipo difícil, respondeu bem a esse cuidado.

Outro dado que surpreendeu: os níveis de acidez dos vinhos ficaram próximos aos de safras mais frescas, mesmo com as temperaturas elevadas. Isso deu ao 2022 uma vivacidade que não estava no roteiro. Em vez de vinhos pesados pedindo anos de espera, os Barolos 2022 chegaram com uma qualidade diferente — são mais redondos, mais imediatos, mais generosos desde cedo.

Voerzio Martini: artesanato das Langhe, em La Morra

A Voerzio Martini é um dos produtores que a VignaVita traz direto do Piemonte — e um dos que melhor exemplifica a filosofia que nos guia: vinho feito com mão, não com escala. A cantina está em La Morra, uma das comunas mais respeitadas da DOCG Barolo, e trabalha com 100% Nebbiolo da variedade Michet em vinhedos plantados já em 1971, a altitudes entre 400 e 430 metros.

O trabalho no vinhedo é central aqui. Nos últimos 30 anos, a relação entre área foliar e quantidade de cachos foi progressivamente ajustada — mais folhas, menos frutos — para garantir maturação mais uniforme e qualidade mais consistente. A colheita é manual, em caixinhas pequenas, para não romper as uvas antes do esmagamento. São feitos entre três e cinco cortes verdes ao longo do ciclo para reduzir a produção por hectare e garantir que os cachos que ficam amadureçam de forma homogênea.

É esse tipo de cuidado que faz toda a diferença em uma safra como 2022. Quando a seca pressiona as videiras, quem já trabalha com baixo rendimento e manejo preciso tem muito mais margem de manobra. A Voerzio Martini tem vinhedos nos crus La Serra e Boiolo — duas áreas com solos de margas de Sant'Agata, aquela mistura de argila fina, areia e calcário que o Nebbiolo tanto adora nas Langhe.

Boroli: de Castiglione Falletto, com história de mais de 450 anos no nome

A Boroli é outro nome que merece atenção quando o assunto é 2022. A família tem raízes no Piemonte desde 1831 — passaram pelo setor têxtil, pela editora, e em 1997 Silvano e Elena Boroli decidiram que era hora de voltar à terra. Literalmente. A cantina fica em Castiglione Falletto, no coração da DOCG, sobre uma colina a 318 metros de altitude.

O grande ativo da Boroli é o Cru Brunella: um vinhedo histórico que circunda a própria cascina da família, com referências documentadas desde o século XVII. É um monopolio — só a Boroli produz Barolo com essa denominação. A exposição é sul/sudoeste e leste, solo argiloso-calcário com veios de areia, e as videiras têm em torno de 40 anos. Não é coincidência que vinhedos velhos com boas raízes tenham se saído bem na seca de 2022: eles conseguem buscar água em profundidades que vinhas jovens não alcançam.

Quando Achille Boroli assumiu a gestão em 2012, uma das primeiras decisões foi cortar produção, atualizar tecnologia e focar em intervenção mínima tanto no vinhedo quanto na cantina. A vinificação do Brunella passa por fermentação em aço inox, maceração longa com chapéu submerso por até 30 dias, e envelhecimento em botti de 1000 a 1500 litros. Depois de ao menos 18 meses em madeira, o vinho descansa mais 12 meses em garrafa antes de ser lançado. É vinho que não tem pressa.

"Qualidade sem compromisso" — Achille Boroli resume assim a filosofia da cantina. Simples assim.

Uma safra para quem quer descobrir o Barolo agora

Um detalhe importante sobre o 2022: diferente de safras monumentais como 2019 ou 2021 — que vão precisar de anos para se abrir completamente —, o 2022 se apresenta de um jeito mais acolhedor. Os taninos estão mais macios, a fruta é mais direta, e muitos vinhos já se mostram prazerosos na taça sem precisar esperar uma década. Isso não é defeito; é uma característica da safra.

Para quem está começando a explorar o Barolo — ou para quem quer beber agora sem ter que guardar na adega por anos — o 2022 pode ser uma porta de entrada muito boa. E ainda assim, os melhores vinhos da safra têm estrutura para envelhecer bem pelos próximos 8 a 10 anos. Não é uma safra descartável; é uma safra diferente, com um charme próprio.

Na VignaVita, acreditamos exatamente nisso: que safras desafiadoras revelam quem realmente trabalha bem no campo. Voerzio Martini e Boroli são dois exemplos de famílias que, quando o ano pede mais, entregam mais. O 2022 é a prova disso.

Vale a pena? Sim. Mas com contexto.

Não vamos fingir que o 2022 é o Barolo da sua vida. Ele não tem a profundidade e a complexidade dos grandes anos que vieram antes. Mas ele tem algo que anos excepcionais às vezes não têm: acessibilidade. É um Barolo que você abre hoje, convida alguém para jantar, e não precisa ficar se perguntando se deu o tempo certo.

E quando ele vem das mãos de famílias como Voerzio Martini e Boroli — gente que trabalha com capricho de verdade, de videira a garrafa —, o resultado é um vinho que conta uma história honesta de um ano difícil, superado com inteligência e cuidado. Isso, pra gente aqui na VignaVita, é o que torna o vinho interessante.